segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A verdade está lá fora (ou Escreveu não leu...)



Odeio dizer “os gregos disseram tudo”, mas os gregos disseram tudo. Quando Sócrates ficou ressabiado ao descobrir sobre a invenção da escrita, num dos diálogos de Platão, ele tinha razão. Sim, a escrita permitiu uma forma muito sofisticada de transmissão de conhecimento e nós só sabemos o que os gregos disseram graças a ela. Eu inclusive me ocupo da escrita. Nada contra, em absoluto. Mas há um lado negro em sua força.


Quando queremos certeza pedimos “preto no branco”, a grande analogia da cor do papel e da tinta das letras. E temos as leis, os decretos, os contratos e tudo mais assinado registrado carimbado avaliado e um bom advogado desdiz e diz de novo de um novo jeito e de repente pega. Na Inglaterra, por exemplo, a constituição não é escrita. É baseada em costumes e é muito mais pétrea do que a brasileira, porque só muda se mudar toda uma estrutura social consolidada.


Sócrates alertou que a escrita iria prejudicar a memória; que as lembranças, ao invés de guardadas no interior, seriam confiadas ao papel. E com este vagando por toda parte, lido por todos, inclusive por aqueles que não o compreenderiam, seria impossível defendê-lo de maus julgamentos. Não é diferente do que se vê hoje, quando jornais, revistas e similares são bradados como provas de fatos. Incontestáveis por serem papéis pintados com tinta.
PS. Achei pouquíssimos textos de Platão online, e dentre eles não encontrei Fedro, onde está o diálogo A invenção da escrita.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

200inove

A despeito da convenção que divide o tempo em ciclos, nunca se esqueça que:

"é dentro de você que o ano novo cochila e espera desde sempre."

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Então é natal...

Ou Sim, eu sou ranzinza

Ou ainda Rôu, rôu, rôu pra você também


Eu definitivamente não consigo me empolgar com o Natal. Não porque eu ache a história de Jesus apenas um mito. Eu acho. Mas isso não diminui sua importância na história do mundo ocidental tal como a conhecemos hoje. E o acho mesmo um mito bacana, com uma história bonita e uma mensagem até mesmo revolucionária. O amar ao próximo como a si mesmo se fosse tomado ao pé da letra, sem as deturpações que sofreu pelas religiões, sem os intermediários que dizem falar em nome dele, estaríamos bem melhor. Não duvido. Enfim, a idéia de Jesus é uma idéia bacana, acredite você nele ou não. Mas a forma como se comemora o nascimento desse mito é tão deturpada como o uso que sempre se fez do seu nome. A beleza da simbologia, esvaziada, perde o sentido. O que vivemos é um show de consumismo e gula, protagonizado por outro mito, que acaba roubando a cena mas que não tem nada a dizer.
Falei algo parecido, ano passado, ainda no Tudo aquilo.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Onde a felicidade?



Vovó, que era de um pessimismo angustiante mas que traz à vida uma certa poesia, citava sempre uns versos que hoje, graças ao google, descobri serem do poeta Vicente de Carvalho: “A felicidade está onde nós a pomos/ mas nunca a pomos onde nós estamos.” Já eu, de um otimismo contraditoriamente depressivo, discordo. Não pomos a felicidade em lugar nenhum, porque ela, etérea, está sempre nos escapando das mãos.
Acho mesmo a pergunta do título pura retórica, o que não faz a vida infeliz, de modo algum. É essa busca, por uma felicidade hipotética que nem sabemos bem o que é, que nos move adiante. Ela é que traz a inquietação do nosso eterno desejar. E, como toda questão insolúvel, esta também perambula pela obra dos poetas.
Eça, num dos seus brilhantes contos, disse: “... nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira, simples e facilmente feliz – como a guerra. É a paz que, dando os vagares da imaginação, causa as impaciências do desejo.” Eu não sei a que tipo de guerra ele alude, mas é certo que não vivemos em paz, e essas guerras não declaradas definitivamente não aquietam o espírito.
Por isso talvez tenha mais razão outro português, o Pessoa, ao escrever: “Só quem puder obter a estupidez/ Ou a loucura pode ser feliz.” Taí, duas formas de alheamento do mundo. De olhos fechados não se vê toda sujeira. O contratempo: nem uma, nem outra se adquiri por vontade própria.
Mas nem tudo está perdido! Temos as tais horinhas de descuido, que é onde, segundo Guimarães Rosa, está a tal felicidade. A gente nem sempre percebe, mas impossível não sentir o gosto. Daí a gente guarda no HD, porque ouvi alhures que ser feliz é ter prazer nas recordações. E vez ou outra você prova uma das madalenas.
Mas todos os poetas e quiçá os filósofos não chegam a uma definição tão clara, orgânica, visceral como chegou vovó, mesmo sem ter sabido aplicá-la em vida: felicidade é o bom funcionamento dos órgãos vitais. O resto é lucro.

sábado, 29 de novembro de 2008

Da série quotes

"Se a religião é o ópio do povo, o futebol é o baseado."

(do meu primo, ontem no bar)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Das formas de encarar a vida


Calvin e Haroldo é pra mim das tirinhas mais bacanas. O mundo de imaginação de uma criança (e dos adultos também, tá?) é dos bens mais preciosos que se pode ter no mundo. A vida precisa de um lado lúdico, ou se torna impossível. Dura demais. É em criança que desenvolvemos esse lado, mas é como adultos que temos o dever de deixá-lo vivo. Bill Waterson quando resolveu parar de fazer o quadrinho, fechou (?) a história com chave de ouro.


E não é que nas minha andanças pela internet, descobri que o Inagaki descobriu um final apócrifo pra tirinha, que ele classificou – com razão – como a tira mais triste de todos os tempos.

Escolher um fim ou outro muda a história de uma vida. Qual o seu?

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

E viva a democracia!



Winston Churchill dizia: a democracia é o pior dos regimes, salvo todos os outros. E não há como não concordar. Mesmo que a gente reclame do nosso protótipo; mesmo que seja difícil achar um lugar onde ela ande de vento em popa, sem muitas pedras no caminho; mesmo que a gente passe dia após dia indignados com todos os descaminhos pelos quais passam nossos governos, a democracia é o melhor dos regimes. Mesmo que ela exista só na intenção, é essa intenção que nos dá o direito de lutar por sua implementação real.
Todo esse papo por causa de um conjunto de rock de mulheres da Arábia Saudita, que vem fazendo um certo sucesso no Myspace: The AccoLade. Lançaram por enquanto só uma música, Pinocchio. E não pretendo fazer aqui nenhuma crítica sobre a qualidade da música, que não é nada demais mesmo. Mas o que impressiona é a coragem das meninas em desafiar uma cultura defendida com métodos nada aprováveis pelo regime do país.
Depois da enxurrada de livros de origem mulçumana pululando nas listas dos mais vendidos no ocidente, eu acabei por descobrir que muitas mulheres lutam pelo direito de usar o véu. Mesmo sem entender, não podemos questionar nem relativizar valores que são diferentes dos nossos. Sobre o assunto, recomendo o livro Neve, que valeu o Nobel ao turco Orhan Pamuk e Persépolis, a animação feita a partir de um quadrinho, da iraniana Marjane Satrapi.
Mas em nenhum momento isso pode deixar de ser uma escolha. E uma banda de mulheres surgir num país onde elas não podem por exemplo votar, dirigir, sair desacompanhadas, estudar ou ir ao médico sem permissão e sem poder se apresentar em público ou mesmo sair em fotos juntas é quase milagre.