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terça-feira, 24 de março de 2009

Nada do que não foi poderia ter sido*

Sobre o livro de Cristovão Tezza, O filho eterno


Na vida há um equilíbrio, ou desequilíbrio sabe-se lá, entre acasos e escolhas. Aceitar a inevitabilidade do que independe de nós não pode paralisar escolhas que também fundamentam as direções dos nossos destinos (falo aqui do plano emocional, não político-social).

“O inexorável é a transformação: qualquer uma.” - Tezza diz isso se referindo ao transcorrer do tempo.

A equação, sempre inexata, entre acasos e escolhas – que nos leva a ações e a pensamentos – acaba por nos transformar no que somos (num processo sempre contínuo). Entender essas transformações pode até não ser fundamental para crescermos. Mas trazer à tona alguns – pelo menos alguns – desses processos inconscientes enriquece infinitamente esse crescimento.

O personagem de Tezza não se furta a isso, mesmo que tenha seus momentos de fuga (como temos todos). Escolhe, mas também aceita.


*essa frase permeia todo o livro

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Onde a felicidade?



Vovó, que era de um pessimismo angustiante mas que traz à vida uma certa poesia, citava sempre uns versos que hoje, graças ao google, descobri serem do poeta Vicente de Carvalho: “A felicidade está onde nós a pomos/ mas nunca a pomos onde nós estamos.” Já eu, de um otimismo contraditoriamente depressivo, discordo. Não pomos a felicidade em lugar nenhum, porque ela, etérea, está sempre nos escapando das mãos.
Acho mesmo a pergunta do título pura retórica, o que não faz a vida infeliz, de modo algum. É essa busca, por uma felicidade hipotética que nem sabemos bem o que é, que nos move adiante. Ela é que traz a inquietação do nosso eterno desejar. E, como toda questão insolúvel, esta também perambula pela obra dos poetas.
Eça, num dos seus brilhantes contos, disse: “... nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira, simples e facilmente feliz – como a guerra. É a paz que, dando os vagares da imaginação, causa as impaciências do desejo.” Eu não sei a que tipo de guerra ele alude, mas é certo que não vivemos em paz, e essas guerras não declaradas definitivamente não aquietam o espírito.
Por isso talvez tenha mais razão outro português, o Pessoa, ao escrever: “Só quem puder obter a estupidez/ Ou a loucura pode ser feliz.” Taí, duas formas de alheamento do mundo. De olhos fechados não se vê toda sujeira. O contratempo: nem uma, nem outra se adquiri por vontade própria.
Mas nem tudo está perdido! Temos as tais horinhas de descuido, que é onde, segundo Guimarães Rosa, está a tal felicidade. A gente nem sempre percebe, mas impossível não sentir o gosto. Daí a gente guarda no HD, porque ouvi alhures que ser feliz é ter prazer nas recordações. E vez ou outra você prova uma das madalenas.
Mas todos os poetas e quiçá os filósofos não chegam a uma definição tão clara, orgânica, visceral como chegou vovó, mesmo sem ter sabido aplicá-la em vida: felicidade é o bom funcionamento dos órgãos vitais. O resto é lucro.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Das formas de encarar a vida


Calvin e Haroldo é pra mim das tirinhas mais bacanas. O mundo de imaginação de uma criança (e dos adultos também, tá?) é dos bens mais preciosos que se pode ter no mundo. A vida precisa de um lado lúdico, ou se torna impossível. Dura demais. É em criança que desenvolvemos esse lado, mas é como adultos que temos o dever de deixá-lo vivo. Bill Waterson quando resolveu parar de fazer o quadrinho, fechou (?) a história com chave de ouro.


E não é que nas minha andanças pela internet, descobri que o Inagaki descobriu um final apócrifo pra tirinha, que ele classificou – com razão – como a tira mais triste de todos os tempos.

Escolher um fim ou outro muda a história de uma vida. Qual o seu?

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Testando o Movie Maker

Há um tempo atrás fiz esse vídeo pra testar o windows movie maker. Eu nunca me acostumo a ouvir minha própria voz!

domingo, 9 de novembro de 2008

Cai o pano? Ou Sobre o amor e suas particularidades

Toda história tem um começo. Com o big bang, a história da Terra; com João, a história da Bossa; com Rosa Parks, a da vitória de Obama (como bem escreve o Saramago); e com a paixão, a(s) história(s) de amor. E o que eu a contrario sensu ponho em questão aqui é a inexistência de fim nessas últimas.

Sim, as histórias de amor não tem, nunca, um final. Claro, se há amor. O amor é infinito por natureza. Acaba a paixão, acaba o tesão, mas o amor perdura. Acaba até a vontade de compartilhar a vida e então ele vem travestido de um aperto no peito, de um sorriso na lembrança. Nas relações mais equilibradas, de uns esparsos jantares e algumas boas noites de sexo. Mas ele está lá. Ele palpita. Ele vem como um bem que não se deixa de querer. E se aninha.


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Do livro que estou lendo à teoria do epifenômeno

OU
Da egolatria de nossa pós-modernidade
OU AINDA
Nós que aqui estamos por vós esperamos


"No princípio, costuma-se contar rigorosamente os mortos, até que as estatísticas percam toda a sua importância. Um só morto é muito mais chocante e solene que um milhão de mortos.Um milhão de mortos tornam as pessoas habituadas à tragédia. Como nas grandes guerras, com bombardeios pesados e armas atômicas. E quando lançarem a bomba final e apocalíptica que aniquilará a todos, isso não será nem mesmo uma tragédia, porque não haverá nenhuma consciência a refletir o desastre. Será apenas o silêncio e o fim simultâneo de todos, como todos terminam isoladamente, por chegar ao fim. Por encontrar sua própria e exclusiva bomba."

(Confissões de Ralfo - Uma autobiografia imaginária - Ségio Sant'anna)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

In media res, o nome


Quando se inicia uma história? Parece fácil responder. Mas toda história é continuidade de uma história prévia. O que nos faz pensar que todos os acontecimentos do mundo, mesmo os mais insignificantes como a nossa vidinha, estão ligados por um (às vezes nem tão) invisível liame. Contar uma história é feito de escolhas. Escolhe-se um tempo, um lugar, uma forma entre tantos milhares.

Aí entram os recursos narrativos, que fazem uma história mais ou menos interessante. Por exemplo, a grande idéia do Tarantino ao contar de forma não linear o seu filme Pulp fiction. Ele se utiliza na verdade de um recurso narrativo que já estava presente nos gregos, Homero, sendo mais exata: o tal do IN MEDIA RES. “No meio dos acontecimentos”, numa tradução consagrada. Começa-se a narrar a ação depois que esta já foi iniciada, guardando na manga o recurso do flashback, depois de já ter instigado o leitor/espectador a conhecer o resto da história.

O uso mais conhecido da técnica foi em Os lusíadas, de Camões, considerada a primeira epopéia moderna, lá do século XVI. A história das navegações de Vasco da Gama começa a ser narrada quando este já está em alto mar: “Já no largo Oceano navegavam,/ as inquietas ondas apartando;”. E somente depois, ele narra os acontecimentos que antecederam a partida.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Semeando idéias

“Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.”

(Drummond – Elegia 1938 - fragmento)


Bin Laden: Says who?

terça-feira, 24 de junho de 2008

A virtude está no meio?

O que há de mais difícil nessa vida talvez seja dosar o que é bom. Porque o que é bom, a gente geralmente quer em doses cavalares. Como comer só um quadradinho daquele chocolate suiço? Mas consumir devagarinho nossos pequenos prazeres aumenta tanto, mas tanto a satisfação que proporcionam que vale a pena a moderação.

E isso vem de uma pessoa (euzinha mesmo) que sempre teve certo pendor para o exagero. O que mais a idade nos faz?


Falando em exagero, Amy Winehouse está com enfisema, resultado do consumo excessivo de crack, cocaína e cigarro. Aos 24 anos. Um talento como o dela, aquela voz que não faria a menor vergonha cantando junto com Aretha Franklin (A voz), compositora e letrista fantástica, talentosíssima. Há uma certa conexão entre arte e exagero, acho eu. Não é o primeiro exemplo de grande talento que se destrói com o desequilíbrio na busca do prazer.


Aliás, equilíbrio é mesmo difícil. E eu não sou, definitivamente, nenhuma sumidade no assunto (e alguém é?), mas acho que ele passa pela percepção de que somos seres permanentemente insatisfeitos. Só a consciência da insatisfação nos permite aproveitar ao máximo os prazeres, sempre efêmeros, da vida.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

É impossível ser feliz sozinho?

Depois do dia dos namorados, uma sexta-feira 13. Sintomático, hã! Proponho, pois, a discussão. Entre o individualismo e a vida a dois, qual escolher?

Foi Sócrates quem disse (e Platão quem escreveu em O banquete) que éramos seres hermafroditas tão, mais tão orgulhosos que Deus nos partiu em dois, um feminino e um masculino, e depois disso passamos a vida tentando achar nossa outra metade. Tempos depois, lá pelo final do século XVI, Shakespeare escreveu Romeu e Julieta. Era o começo da instauração da idéia de amor romântico na sociedade ocidental. A partir daí, deu-se toda essa zorra.

Está nas propagandas, nos filmes, nos livros, nas novelas, está em todo o nosso imaginário que pra sermos felizes precisamos de alguém. Nossa outra metade e só assim ficamos completos. Será? Será que não há pessoa no mundo que se baste a si mesmo?

Em entrevista a Veja, um cara chamada Flávio Gikovati, diz que pra ser feliz é preciso apostar no individualismo. Que não seria necessariamente egoismo, mas uma compreensão de si mesmo como uma unidade completa. Mas ele diz que isso não é possível na vida a dois. Nesse ponto eu discordo. Acho que não há maneira da gente se conhecer tão profundamente quanto na convivência da vida a dois.

É aí que entra a questão: há necessidade de se escolher entre individualidade e vida a dois? São duas coisas que se excluem? Não no meu ponto de vista. Pra mim a vida a dois deve se estabelecer na interseção de duas unidades. Nos pontos comuns, o encontro. Nos pontos díspares, a compreensão. Claro que isso tudo pressupõe um equilíbrio que não é fácil de encontrar, mas o fim do amor romântico clássico não precisa necessariamente desembocar no excesso de individualismo pós-moderno. Ser feliz sozinho é uma opção, o que não significa dizer que o amor não é mais uma possibilidade.


quinta-feira, 5 de junho de 2008

A história das coisas



A gente tem a mania de se eximir da responsabilid
ade de todos os problemas. Meio ambiente, corrupção, consumismo, política, etc. Tudo é culpa de um sistema, abstrato e inatingível, e nós somos apenas uma pessoinha, tão pequena e tão vítima. Pensamos: qual a relevância de nosso comportamento diante de problemas tão estruturais? Qual efeito de nossas ações diante de processos que se desenvolvem há tanto tempo? Pois bem. É exatamente a soma de ações individuais que formam o todo. Claro que há a influência desse tal sistema e somos mesmo moldados para agirmos de determinada forma. Mas daí a negar uma atitude crítica e a se colocar fora do problema é outra questão. Exigir atitudes de governos, instituições ou sei lá mais quem que detenha certo tipo de poder como se fossem únicos responsáveis é comum e também necessário. Mas as coisas não se resolvem de cima para baixo. As leis não surgem do nada. Elas são frutos de fatos aos quais a sociedade atribui certo valor e que por isso dão origem às normas. Por isso, sem que a sociedade se mobilize, sem que as consciências individuais formem uma certa consistência que possibilite reivindicações nada nunca mudará. É claro que aos órgãos do poder cabe fiscalizar. Mas nossas atitudes individuais têm função muito maior do que apenas tranqüilizar nossas consciências.


Aqui a primeira parte de um documentário bacanérrimo de uns 20 minutos, A história das coisas. Vale a pena.