quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Esperando Gullar

Ferreira Gullar é não só o maior poeta brasileiro vivo, é também um pensador da arte e um dos grandes teóricos brasileiros no tema. Sua produção poética é quase um compêndio da evolução da arte brasileira na segunda metade do século XX, até por ser um poeta que reflete sobre a própria obra. Foi do panfletário ao concreto, da preocupação exclusiva com a mensagem política ao extremo da experimentação da forma, até encontrar o meio termo na sua obra prima, Poema sujo, publicado em 76 (mas o meu poema preferido de Gullar – e talvez o meu poema preferido at all, se eu pudesse fazer essa escolha – é A vida bate, de seu livro anterior, Dentro da noite veloz).
Tudo isso porque Gullar pretende lançar, ainda nesse semestre, um novo livro, Em Alguma Parte Alguma, e 5 dos seus novos poemas foram publicados pelo Portal literal. Um deles me agradou de pronto, o que nem sempre é fácil na poesia. Conciso, simples, traduz com perfeição a função essencial da arte de criar a capacidade do livre pensar. Enquanto não chega o resto, fiquemos com ele:


Off price

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Be the change


Eu não compartilho de toda essa euforia em torno do Obama. Mas é fato que em seu discurso de posse ele tocou num ponto que é pra mim uma das revoluções em curso no mundo: a conscientização da responsabilidade individual. A gente viveu pelo menos duas décadas de um distanciamento cínico, um individualismo que criou uma espécie de bloqueio na nossa capacidade de indignação e de engajamento. Eu penso que isso está mudando, se não em todos, em grande parte. Enfim, é piegas e não é a primeira vez que eu falo isso, mas acredito na revolução pessoal. E esse vídeo, embalado pelo discurso do Obama, pretende provocar exatamente isso: revolucione-se.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Aniversariando


Eu sempre tive nos aniversários a mesma sensação do reveillon: uma estranha festa onde se comemora uma mudança que de fato não ocorre. Ranzinza, eu sei. Mas não sei se pela idade (eu tenho rejuvenescido com o tempo, já que nasci com uns 80 anos), não sei se pelo fato de ter renascido quase que literalmente há alguns anos, tenho aprendido a respeitar essa simbologia do recomeço. Portanto, hoje, recomeço.
Mas antes de avaliar o que a gente faz com o tempo, analiso o que o tempo faz comigo. E penso o que de bom o fato de envelhecer pode trazer e, principalmente, no que não deve levar embora. Mais tempo, mais experiência. E a equação acaba aí. Experiência não é sinônimo de mais esperteza. Não necessariamente. Mas eu me saio bem em não cometer os mesmos erros. Mais um ano é sinal de mais livros lidos, mais filmes vistos e assim adiante. É mais 1 ano alimentando a memória cultural. A incapacidade de absorver toda essa informação é fonte segura de inquietação. E inquietação é precisamente o que não pode deixar nossas cabeças adormecerem, para o bem do conformismo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A verdade está lá fora (ou Escreveu não leu...)



Odeio dizer “os gregos disseram tudo”, mas os gregos disseram tudo. Quando Sócrates ficou ressabiado ao descobrir sobre a invenção da escrita, num dos diálogos de Platão, ele tinha razão. Sim, a escrita permitiu uma forma muito sofisticada de transmissão de conhecimento e nós só sabemos o que os gregos disseram graças a ela. Eu inclusive me ocupo da escrita. Nada contra, em absoluto. Mas há um lado negro em sua força.


Quando queremos certeza pedimos “preto no branco”, a grande analogia da cor do papel e da tinta das letras. E temos as leis, os decretos, os contratos e tudo mais assinado registrado carimbado avaliado e um bom advogado desdiz e diz de novo de um novo jeito e de repente pega. Na Inglaterra, por exemplo, a constituição não é escrita. É baseada em costumes e é muito mais pétrea do que a brasileira, porque só muda se mudar toda uma estrutura social consolidada.


Sócrates alertou que a escrita iria prejudicar a memória; que as lembranças, ao invés de guardadas no interior, seriam confiadas ao papel. E com este vagando por toda parte, lido por todos, inclusive por aqueles que não o compreenderiam, seria impossível defendê-lo de maus julgamentos. Não é diferente do que se vê hoje, quando jornais, revistas e similares são bradados como provas de fatos. Incontestáveis por serem papéis pintados com tinta.
PS. Achei pouquíssimos textos de Platão online, e dentre eles não encontrei Fedro, onde está o diálogo A invenção da escrita.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

200inove

A despeito da convenção que divide o tempo em ciclos, nunca se esqueça que:

"é dentro de você que o ano novo cochila e espera desde sempre."

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Então é natal...

Ou Sim, eu sou ranzinza

Ou ainda Rôu, rôu, rôu pra você também


Eu definitivamente não consigo me empolgar com o Natal. Não porque eu ache a história de Jesus apenas um mito. Eu acho. Mas isso não diminui sua importância na história do mundo ocidental tal como a conhecemos hoje. E o acho mesmo um mito bacana, com uma história bonita e uma mensagem até mesmo revolucionária. O amar ao próximo como a si mesmo se fosse tomado ao pé da letra, sem as deturpações que sofreu pelas religiões, sem os intermediários que dizem falar em nome dele, estaríamos bem melhor. Não duvido. Enfim, a idéia de Jesus é uma idéia bacana, acredite você nele ou não. Mas a forma como se comemora o nascimento desse mito é tão deturpada como o uso que sempre se fez do seu nome. A beleza da simbologia, esvaziada, perde o sentido. O que vivemos é um show de consumismo e gula, protagonizado por outro mito, que acaba roubando a cena mas que não tem nada a dizer.
Falei algo parecido, ano passado, ainda no Tudo aquilo.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Onde a felicidade?



Vovó, que era de um pessimismo angustiante mas que traz à vida uma certa poesia, citava sempre uns versos que hoje, graças ao google, descobri serem do poeta Vicente de Carvalho: “A felicidade está onde nós a pomos/ mas nunca a pomos onde nós estamos.” Já eu, de um otimismo contraditoriamente depressivo, discordo. Não pomos a felicidade em lugar nenhum, porque ela, etérea, está sempre nos escapando das mãos.
Acho mesmo a pergunta do título pura retórica, o que não faz a vida infeliz, de modo algum. É essa busca, por uma felicidade hipotética que nem sabemos bem o que é, que nos move adiante. Ela é que traz a inquietação do nosso eterno desejar. E, como toda questão insolúvel, esta também perambula pela obra dos poetas.
Eça, num dos seus brilhantes contos, disse: “... nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira, simples e facilmente feliz – como a guerra. É a paz que, dando os vagares da imaginação, causa as impaciências do desejo.” Eu não sei a que tipo de guerra ele alude, mas é certo que não vivemos em paz, e essas guerras não declaradas definitivamente não aquietam o espírito.
Por isso talvez tenha mais razão outro português, o Pessoa, ao escrever: “Só quem puder obter a estupidez/ Ou a loucura pode ser feliz.” Taí, duas formas de alheamento do mundo. De olhos fechados não se vê toda sujeira. O contratempo: nem uma, nem outra se adquiri por vontade própria.
Mas nem tudo está perdido! Temos as tais horinhas de descuido, que é onde, segundo Guimarães Rosa, está a tal felicidade. A gente nem sempre percebe, mas impossível não sentir o gosto. Daí a gente guarda no HD, porque ouvi alhures que ser feliz é ter prazer nas recordações. E vez ou outra você prova uma das madalenas.
Mas todos os poetas e quiçá os filósofos não chegam a uma definição tão clara, orgânica, visceral como chegou vovó, mesmo sem ter sabido aplicá-la em vida: felicidade é o bom funcionamento dos órgãos vitais. O resto é lucro.